Eu não teria jamais pensado que " O Poço ", que
é um tipo de testamento espiritual, uma pedra entre tantas outras
depositada no caminho da sabedoria, seria um dia traduzido em
português. Nós devemos este longo e difícil trabalho à amizade
desinteressada de Dona Dulce Laubscher, à quem eu tenho à exprimir
aqui minha profunda gratidão. Durante longos meses, ela se esforçou,
com uma escrupulosa honestidade, à restituir a essência de um
pensamento pouco convencional, tanto mais difícil à compreender
visto que ele é com frequência expresso de uma maneira poética. Eu
não posso julgar o resultado do seu paciente e constrangente labor,
mas eu tenho inteira confiança nela e desejo de coração que a sua
pena seja recompensada por um eco favorável junto aos leitores de
língua portuguesa.

Um conto antigo nous fala de um " buscador de Verdade " que, renunciando à esperança de alcançar o objeto da sua busca, retornou ao mundo onde ele
começou à cuidar do túmulo de un guia. Ele viveu lá, de esmolas dos peregrinos, até que, de uma maneira inesperada, ele despertou à última
realidade.
Hoje em dia, seria difícil de instalar-se como guardião de um túmulo, mesmo que ele seja o túmulo de um sábio. Seria igualmente difícil de instalar-se
como guardião de um poço. No entanto, foi disso que nós tínhamos sonhado ! Mas existem outros poços que estes cavados na terra e, para os homens, uma
outra água que aquela que escorre dos cimos. É de la que veio esta coleção, de um " algures " muito próximo et portanto, hoje como jamais, deliberadamente
ignorado.
Nós podemos exprimir " algures " através de reflexões mais ou menos longas, mais ou menos complexas, como nós retiramos, de um poço, uma água mais ou
menos límpida em baldes mais ou menos cheios. Mas o que importa a forma ? O essential é alcançado si, ao cair da noite, perto do poço, a caravana
reencontra a força necessária para continuar e terminar sua viagem.
O verdadeiro Caminho, que atravessa a vivência quotidiana, é o aprofundamento do conhecimento de si mesmo, isto é do Homem e do Universo.
Ele se termina quando o " Ego " e seu cortejo de medos, de contradições, de violência desaparece. Então, e somente então, começa a verdadeira Aventura :
a descoberta sem fim do Momento.

Ao iniciar o Caminho, Proteja a confiança ainda frágil : Guarde secreto os seus primeiros passos

Eu contemplava os meandros do passado quando um barulho me fez virar a cabeça. A meu lado, uma criança me olhava fixamente. Surpreso, eu me perguntei :
era ela de ontem, ou a imagem de un dia futuro ? Era eu um homem que transportava os sonhos de uma criança, ou uma criança que
sonhava em ser um homem ?
Nós nos olhamos longamente. Un de nós devia morrer.

O son de uma flauta ecoou na noite, en seguida uma voz o acompanhou na sua ascenção em direção
das estrelas.
" Deus! onde estás ? " perguntou o homem. Não existe, respondeu a flauta, um " Deus " que, escondido " lá longe ", se alegra com
você quando uma rosa desabrocha, nem que seca as suas lágrimas quando você se inclina diante dos túmulos. Não existe ninguem para compartilhar o silêncio das noites de amargura nem para dançar com você sôbre o orvalho da alvorada. Ninguem !
Nem Deus, nem a amada, ainda menos o vento ou a lua.
Melodia de uma evidência : nós podemos e devemos caminhar sós. Nós não temos necessidade de muletas. Nós nunca tivemos necessidade.

Porque eles se lamentam aos pés dos altares ? Porque eles não cessam de implorar graças que século apòs século, se recusam ?
A esperança faz do Homem um escravo. Mas quando é que ele compreenderá ?


A aurora atravessa lentamente as nuvens que correm en direção do sul. Um avião aterrissa,
todo iluminado. Aqui, caminhos se cruzam. Lá, eles se separam. O que restará de um sorriso, de uma palavra ?

O vento não tem nada para dizer. Sua lei é de passar. É ela diferente da nossa ?

Um cão preto e branco corre num prado verdejante e florido com rosas silvestres.
Um místico aconselhava : " Si um afamado bate à sua porta, deixe Deus e va lhe preparar uma sopa ! " Um sábio chinês perguntava ao discípulo preocupado
com verdades profundas : " Já comestes ? Já ! Então va lavar vossa marmita ! "
Nós discutimos de deuses ou de diabos e não vemos o cão que corre no prado verdejante, florido com rosas silvestres.

Cada um conserva um cemitério secreto onde periódicamente ele ressuscita seus mortos, confessa-lhes o inconfessável, arranca-lhes palavras que
são o eco de seus próprios desejos, antes de os mergulhar, marionetes de sonho, nos limbos da memória. É perto desses túmulos ciumentamente vigiados
que nós crescemos pela contemplação de nossas infelicidades, lá que nós desculpamos nossas covardias, lá, nestas sombras do passado, que nós vivemos a
maior parte do nosso tempo.

Uma granada em uma mão, Marx, a Biblia ou o Corão na outra,
nós pretendemos transformar o mundo. Mas carregar a revolução em nosso
espírito, caminhar sem adotar nenhuma verdade como único pão do qual
pudéssemos viver, eis o tipo de aventura do qual nós não queremos ouvir
falar, nós, construtores de catedrais, conquistadores do espaço, e
demolidores de planetas !
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