Um vento glacial está soprando. Impelido por uma esperança de conforto, um gato se lança no meio da rua. O automóvel não pôde évita-lo.
A emboscada é imprevisível e, contra aquela que nos fará cair para sempre, não existe abrigo.

Nós deveríamos sentir-mos felizes por ter apenas um fio à cortar. Mas nós fugimos, fingimos, enganamos e, de um fio, nossa covardia faz uma corda.

As asas da sabedoria, às vezes, levam nossos sonhos. Assim, uma noite eu parguntava a um velho pescador :
— " Quando uma tempestade vos atinge, o que fazes ? "— "Eu abaixo as velas, fecho as escotilhas e vou me deitar.
Uma outra noite, em um outro porto, eu hesitava a partir para uma longa viagem quando um homem, morrrendo com uma bala no ventre, passou perto de mim. Sorrindo ele disse " Nada, jamais, deve nos impedir de ir onde queremos !"

Como é dificil se desviar das miragens ! Ninguém nos obriga ao renunciamento ; e a morte, única a ter este poder, permanece uma certeza distante, quase esquecida. Antes de sua hora, nenhum constrangimento, mas uma liberdade que nos assusta. Crianças, a obscuridade nos aterrorizava ; hoje, é a luz pressentida e o peso da solidão total.

Por mais leve que ele seja, o desejo de obter o Despertar constitue um obstáculo semelhante a um rio em cheia.

É vão de se retirar na solidão e de alí esperar a libertação.É vão de frequentar o mundo e de alí esperar a palavra ou o gesto que nos libertará.

No meio da noite, o homem descobre a desesperança. A sua razão se perde e, num soluço, ele implora à Deus. Será possível que além do nosso tempo ninguem nos acolhe ? Silêncio.

A raiva o domina : " Maudito sejas, tu que não ousas comparecer no tribunal de tuas criaturas ! " Ausência.

Toda revolta é inútil. Mesmo as estrelas ignoram o segredo. Elas nascem e morrem seguindo os caminhos da Lei. Só o homem tenta escapar ao ciclo inevitável : De nada, através de nada, em direção de nada. Só ele se assusta e inventa estes " além da morte " que resgateiam as religiões. Mas no ardor da solidão, ele compreende, enfin, que nada lhe abrirá as portas do mistério, sinão o silêncio do se proprio pensamento.

Nâo perca tempo. Apresse-se de rejeitar os mestres e de sair do Caminho !

A fonte corre
Arrulha e canta
Porque perguntar :
De onde vem a sua água ?

O " ancião " * ao abrigo de poderosas muralhas sonha em dominar o mundo. Entretanto, onde quer que ele dirija seu olhar, ele descobre terras proibidas onde outros homens vivem outros sonhos.

* O " ancião " é tradicionalmente o símbolo de " si mesmo ".

Quem certificará que os tiranos não são os instrumentos necessários a um plano desconhecido ? Quem provará que um gesto caridoso não mata jamais ?

"Ser homem, é ser responsável !" Seja ! Mas de quem ? De que ? Se tratando de ser responsável de outros, quem nos protegera da intolerância ? Tratando-se de prestar contas de nossa vida, o importante é saber quem somos nós. Ser responsável, é se conhecer a si mesmo.

Quantos homens, seduzidos por um ideal, esperavam obter, no jogo da vida, um lugar importante ? Mas quantos ousaram se perguntar : quem determina meus objetivos ? Quem, talvez, os alcançará ?

Ao invès de deixar as pedras nos seus lugares, nós queremos incluí-las em nossas construções. Assim, cada acontecimento diante da nossa visão do mundo torna-se significativo... ao preço de um esforço que nos évitará um realista " é assim "

Nós acreditávamos num Caminho aberto sôbre o infinito. No entanto um dia soou a hora da aposentadoria e uma voz murmurou : " esta viagem não tinha outra utilidade que de provar sua inutilidade. "

O medo do desconhecido gera o desejo de reduzir este desconhecido às dimensões familiares. O pensamento, que se esforça neste trabalho, deveria admitir sua incapacidade e se calar. Nós veríamos então, de maneira inesperada, o medo desaparecer.

Para aprender, todos os meios são bons, mesmo aqueles que, às vezes, matam. Si sobrevivermos, não devemos nos demorar na lembrança de um desastre evitado, e fiquemos surdos à voz que se pretende um sucesso pessoal lá, onde só a sorte nos salvou.

Eu não sei mais quem eu sou
Embora eu o saiba ainda um pouco.
Eu não sei mais onde eu vou
Mesmo si eu vou...

A imagem dos nossos desejos flutua diante do nosso olhar interior, tão tenaz e impalpável quanto a nossa sombra.

Eu sei matar,
mas como dar a Vida ?

Abandone vossos sonhos, abra a prisão e, pelas sendas da aurora, vá sem olhar para trás. Outros o fizeram.

A água do lago
Reflete o ouro do entardecer.
A garça volta para o seu ninho
Magestosa, solitária.

Se liberar de si-mesmo, é colocar um telhado na sua casa. Si os muros e as fundações não são sólidos, o desmoronamento é certo.

Não é estranho de ter sempre, no seu próprio espiríto, alguém com quem conversar ?

Você pensa cultivar a amizade ? Você preza os hábitos !

Mercadores de idéologias ou de caridade, privados das causas por vós defendidas, o que sobra de vós ?

Àquele que clama : " Deve-se pôr um fin à corrida às armas, vencer a pobreza, etc. " é irrealista. O que dizer daquele que sugere : " Olhe em vós mesmos e coloque um fim à vossa propria confusão ! " ?

Não existe um " mau " ego que possa ser destruido em favor de um " bom " ego. O ego, na sua totalidade, deve ser posto em questão e ultrapassado.

Face ao silêncio, reduzido à inércia, quem sois vós ?

O Caminho muito longo, o tempo muito curto, proibem de se deixar reter por apegamentos estéreis. Dos que não compreendem nem vossas palavras nem vossos silêncios, distancie-se sem ódio nem pesar.

Longas ondas que se derramam em suspiros : visão de tédio. Às vezes, um olhar voltado para o passado. De onde vinham essas palavras, estes laços, aniquilados pela solidão ? Quem viveu isso ? Existe ao menos um " quem " ? Estranho grande sonho !

Outrora, ébrios das palavras deles, nós partimos à procura da flor única. Mais tarde, em silêncio, surgiu a decepção. Olho seco, nós tomamos a bebida amarga. Nossas lágrimas não teriam feito florir um lótus de ouro.

Eu não temo mais o destino e esperarei, perdido entre dois infinitos, que Tu me fales. O que pensas vento ?

Nada !
Eu sou o vento,
Eu sopro.

Que alguém pronuncie a palavra felicidade e cá estamos rastejantes, engulindo todas as indecências políticas, religiosas e filosóficas do mundo. Assim, de esperança em desesperança, sem ter feito nenhum passo, a humanidade se imagina, ô Platon, tirada da Caverna.

Ao mais frágil " eu quero ", a Verdade se nega. Nossa vontade, tensa, garante nossa. falência eterna.

Nós confundimos aproveitar da vida e viver porque nós temos necessidade de sensações para acreditar que nós existimos.

Com um sopro nós esperamos transtornar o Universo. Cegos, nós falávamos de luz. Nós não tínhamos nada para dar e sonhávamos em cobrir o mundo de flores... de que poderíamos ainda nos atormentar ?

Do rochedo, eu contemplo o oceano. Nenhuma vela no horizonte. Aliás, quem viria me procurar ? No céu onde a lua se levanta, o olhar da amada se apagou. O amor, como os cometas, nos deixa apenas o tempo de um desejo...


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Escute isto : " Uma nobre consciência de si-mesmo, um sério pleno de lógica e sem comprometimento são as disposições indispensáveis si quizermos servir os outros. "
Voce vê Confucius, cheio de sabedoria, se pavoneando no meio dos macacos que o seguiram ? Amigos, venham, fujamos para a casa de Lin-Tsi ou Tchouang-Tseu !

Nossos modelos de coragem, ocultando o medo, o tornam mais perigoso. Não há então nenhum remédio ?

A neblina desaparece
A fonte canta.
Porque se preocupar consigo ?

Do ego, nós faremos esta sedutora descrição : Ele é passageiro, claudicante, zarolho, indeciso, convencional. Além disso, sendo pura matéria, ele é tão velho quanto as galaxias que vogam à orla do Universo.

Alvorada nascente.

Despertar aos poucos : fechar a porta dos sonhos, escutar o canto da fonte e os primeiros barulhos do vilarejo. Gesto automático em direção do rádio. Primeiras noticias, laços distantes com o mundo, mortos e catástrofes reduzidos à algumas palavras. Alguns toneis de cianeto derivam ao longo da costa basca. Beirute está à fogo e à sangue.
Aqui, as brumas nos escondem o horizonte e, sobre os telhados arrulham os pombos.

Eu atravessei abismos transtornados
Pelo éco da Tua voz.
Eu andei em desertos
Que afligiam Teus silêncios.
Estúpido e desamparado,
Eu me sentei diante da Tua porta.
Porque Tu não abres ?

Des-esperança, de-cepção. Un sonhador, confrontado com a realidade, gera estes dois conceitos. Mas de que ficaríamos decepcionados si não esperássemos nada ?

Nossa vida, tão curta, porque perdê-la vagando de sonho em sonho ?

Quando um fato prova sua fragilidade, o Ego tem tendência à adormecer, ou mesmo à desejar a morte. Este é seu último engano : procurar a durabilidade na destruição.

martin-raget.com

O vento cava o oceano,
As ondas batem nos rochedos – estrondos. Do ventre das nuvens
Surgem relâmpagos – cegueira. Lá longe,
Turbilhões de areia se levantam
Fantasmas dançantes, em fuga, 
Em direção do deserto onde repousa a amada.

Tomar por uma entidade durável o centro que experimenta o mundo vem da ignorancia. Si elas não denunciam em primeiro lugar e antes de tudo esta ilusão, a filosofia e a psycologia só geram falsas verdades.

As exortações dos mestres se perdem. O sonho torna-se transparente.
Não existe traço de um Deus em nenhum lugar,
Mas em toda parte – sem começo nem fim O Amor.

Ao longe um passaro chama um companheiro.
Cesse de procurar, menino ! Os murmúrios da floresta são teus melhores amigos. Eles só passam, sem nunca sonhar de te escutar cantar numa gaiola.

Como devia ser triste a idade das cavernas, sem bombas A, H, N, sem petróleo ! Como devia ser vazio o cérebro do Homem, sem estas grandes ideias que hoje proliferam e matam, tão certamente quanto outrora as épidemias !

http://zvis.com/nuclear/nukimgs.shtml

Certamente, no pior momento, um aturdido fará a mais deplorável das perguntas : " O que você ganha a seguir o Caminho ? " Resposta seca, como um osso esbranquiçado por muitas intempéries : " Nada ! " No entanto, nenhum outro caminho saberia nos seduzir.

Como, sem estar desencorajado, renunciar ao mundo ? Como, sem tristeza, viver só ?
Amigo ! A visão do mundo tal como ele foi, tal como ele é, deveria ser suficiente para te fazer compreender que toda esperança é enganadora.

Eu sonhava de, no fim da vereda, ser acompanhado pela amada. Infelizmente, os cumes só se oferecem aos solitários.

O passado do universo e o saber acumulado desde a alvorada da humanidade condicionam a consciência. O Homem é a memória das origens.

Nossos apegamentos nascem de uma percepção. Não há amor sem uma voz, um olhar, um corpo, não há ódio sem injúrias. Mas porque o sentimento subrevive à percepção ?

O conflito corrompe, limita e enfraquece a consciência. Pior, tudo que pretende resolve-lo o entretem.
O que sobrevém a um espirito que se abstem de avaliar, de julgar, de escolher ?

Viver " sem preocupações " não é tão simples nem desejado como parece pois... o que seríamos sem nossos problèmes ?

A memória é um vasto cemitério onde os mortos simulam viver.

Durante todo o tempo em que, pelo Ensinamento, nós esperamos satisfazer o Ego, nós avançamos de desgostos em decepções e o Conhecimento nos é recusado.

Sabedoria é bom senso : pouco importa o prazo, nada dura. Esta certeza deveria nos liberar da angústia. O contrário se produz. Porque ?

O Ego deve, no limiar da Realidade, eclipsar-se ao ponto de ser incapaz de decepção.

Si nós compreendemos as palavras dos sábios, nós não as vivemos. Nós falamos do rio, alí talvez molhamos a mão, mas nós não mergulhamos.
Sólida é a margem, movediça é a onda. Cada um escolhe o seu caminho.

osimon.free.fr

Nossos conceitos não percebem a fluidez da Vida. Condicionados, eles condicionam ; limitados, eles limitam. Nenhum conceito pode liberar o homem e lhe restituir à Inocência.

Porque se inclinar sôbre antigos " Koans " ? * Cada manhã a vida nos oferece outros inéditos. Com profusão...

* O " Koan " é uma fórmula intencionalmente absurda, destinada à provocar na pessoa que o medita um tipo de estouro liberador do mental ( F. Schuon ).




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