Nenhum conhecimento sem extinção daquele que quer conhecer, Nenhuma paz
sem extinção daquele que quer a paz !

Eu disse à meus amigos : " Não se ocupem mais de mim ! "
Alguns me julgaram pretencioso. Eles ignoram que no tempo da Provação, só Aquele
que aflige pode salvar.

Entre o que nós possuímos e o que nós sonhamos possuir, entre o que nós somos e
o que nós pretendemos ser, existe conflito. Constatando este fato, o pensamento
atinge seus limites.

O homem se esgota para compor sua imagem. Seria ele menos alerta do que o
camelo que, ele, negligencia as miragens e só procura o poço ?


Entrar no tempo da Provação é obra do destino, sair com vida também. Mas entre
os dois, amigos, será necessário trabalhar muito.

Durante anos, nós nos refugiamos sob a árvore da sabedoria. No entanto, nós
não saberíamos descreve-la, pois suas formas são múltiplas e englobam séculos.
Amigos ! Sempre que uma sombra fresca vos acolher, levante a cabeça e se esforce
de comprender " A linguagem dos pássaros " *.
* Uma alusão à obra do poéta místico persa Farîd-ud-Dîn ’Attar.

Sem rituais nem doutrinas, nós fizemos de cada gesto uma oferenda e de cada
palavra uma prece.

É difícil distinguir os homens nobres dos homens vulgares ; pois muitos
bandalhos são donos deste mundo, enquanto que cada dia, nos pardieiros obscuros,
morrem verdadeiros príncipes.

Despertar , é colocar cada coisa no seu lugar : os pensamentos em repouso e a
caçarola sobre o fogo. Nada mais simples, nada mais dramático.

Eles perguntarão : O que é a Provação ? Responda : É quando, p’ra você, o mundo
está arruinado e despojado de todas suas seduções.

A sabedoria de mil livros Comparada à experiência O que ela
vale ?

Oh Rei !
Teus servidores são infieis :
Eles perseguem as servas do palácio,
Lhes fazem o amor nas alcovas
E, por um suspiro,
Eles esquecem
Que a cada instante,
E hora de Te servir.


Tentar transformar ou aniquilar o pensamento é tão sensato quanto querer
expulsar a lua do lago onde ela se mira.

Todo conhecimento é um conceito. Assim é importante de, no momento apropriado,
se liberar do Ensinamento.

Não olhe o reflexo da canarana :
Não é ela que balança o vento

Futilidade de toda pesquisa! tal é a resposta às questões fundamentais " Quem
pensa ? Como ? e Porque ? "

O rio segue o seu curso, Que lhe importa o pescador ?

Ás vezes, uma esperança nos estimula : Eu estou perto da perfeição !
Mas como saber , visto que nosso objectivo não foi jamais atingido ?

O amante é uma onda,
A amada uma outra.
O oceano lhes separa,
O oceano lhes une.


Nós transportamos o conjunto da aventura humana, seu pêso de terror,
sua feroz vontade de sobreviver, suas mais imprevisíveis possibilidades futuras.
Quem não se sentiria, certos dias, prostrado com uma tal carga ?

Teria você sofrido menos em outros caminhos ? Pouco importa ! Nada existe por
um longo tempo, nem a alegria, nem a tristeza e, pouco importa qual seja o
caminho, você sabe onde está o seu fim...

Eu procurei em todos os universos sem encontrar este " Deus " fantasista qui
elege povo ou pessoa, gratifica ou castiga. Em compensação, eu descobri as leis
imutáveis, idênticas em todos os lugares, e fundamentalmente impessoais.

Nós " renunciamos " a um objeto si ele nos for tomado ou si um outro o
susbtitui. Renunciar livremente a todo apego, é, de repente, desenraizar a
violência.

Escravo do medo, fiel à sua mediocridade secular, o Homem estagna, longe dos
cumes que ele poderia conquistar.


Porque hesitar em quebrar os laços do passado ? O que existe de sedutor a viver
assim, de tristeza a esperança, mortos vivos, como uma fera aprisionada ?

De um grito,
De um silencio,
Despertais o universo !

Com frequência temíveis provações protegem riquezas insuspeitas. Si as
lágrimas nos cegam, si por covardia nós hesitamos, só a morte vem ao encontro.

Da passagem do vento, nós só vemos o efeito. Acontece o mesmo com o Tempo.
As ruinas cobrem o mundo, mas quem jamais viu o Tempo ?

Os caminhos se cruzam, se perdem, se reencontram. A razão não compreende nada
deste mistério.

Si ele não renuncia a se nutrir dos sonhos comuns, o indivíduo perde a sua
unicidade.
Uma rosa pode despertar o sorriso da amada,
Mas si ninguém a colhe,
Ela permanece no meio de cem rosas esquecida,
Seu perfume se perde
E, no rosto amado, nenhum sorriso desponta.

O desígnio de toda consciência é de, se desviando das confusões do mundo,
retornar à espontaneidade.

Amigo ! Tua felicidade não é a minha. Minha infelicidade não é a tua. Esquecer
isto poderia nos matar.

O desejo — por mil sonhos,
Prende-se à mil objetos.
A vida — demasiadamente breve,
Não permite o detalhe :
Destrua a única ilusão !

É difícil compreender que querer desfazer é justamente o que nos impede de
desfazer, que querer ser desapegado é apego, que o apego é ele mesmo a causa do
isolamento que ele tenta combater.

Quem vos dirá quantos séculos vós andareis no Caminho, quanto sangue vós
derramareis ? Quem sabe si vós chegareis à perfeição ou si vós sereis fulminado ?

Escute a música do Céu
Quando o vento sopra
E, quando ela adormece,
Escute os murmúrios da Terra.
Si os dois mundos ficam silenciosos
Não se assuste,
Eles se repousam.

As provações dolorosas conduzem à Humildade. Recusá-las,
pretendendo ser humilde, é covardia. A Humildade é vulnerabilidade, abertura à
qualquer imprevisto. Ela é, como o Amor, inconsciente.

Ao sofrimento,
Eu te amo porque tu me esclareces :
Tu es a compaixão do Bem-Amado.

" Deus ", " Família ", " Pátria " palavras defensivas, cumplices da nossa
barbaria : quantos homens entregues, cegos ou mortos, às armadilhas de vossas
seduções ?


Este mundo é " um trapo velho " ou " o cadáver do nada ". Porque andar
tanto ? Porque tantas lágrimas e tanto sangue ? Si de um trapo ou de um cadáver
nós somos escravos ?

Como Tu estás em toda parte
Nós não Te vemos
Como Tu não ficas em nenhum lugar
Em toda parte nós Te procuramos.

Alguns acreditam que os rituais ajudam a imergir no sagrado e a se lembrar de
Deus. Nós dizemos que ele é mal amado, o Deus que nós enclausuramos entre quatro
muros cobertos de imagens, entre quatro palavras, quatro gestos.

O pensamento reina no centro da consciência e acredita que o sol se levanta
para seduzí-lo e que, por ele, até a noite ele se consome...

Um olhar me cegou,
Um rosto me ocultou Tua Face.
Por um gemido,
Eu esqueci os ventos ;
Vergonha !

Oh mundo !
Tua incessante tagarelice
Cobre o murmurio da Fonte.
No entanto,
Eu ainda te escuto ...

Meu coração não seja idiota !
Cesse de lavrar e de semear
Nas cinzas de Ontem.
Meu coração, cesse de se atormentar ;
Pois Hoje — e Amanhã, No jardim de Ontem,
Já estão sepultados.

Não procuremos a ocasião da liberação. Fiquemos vigilantes, afin de a
reconhecer, e de agarrá-la, instantâneamente.

Os sábios jazem sob a terra aniquilados. Mas os ventos infatigáveis, até a
última noite, atissarão os fogos acesos no coração dos amantes.

Eu hesito entre dois mundos. Nem um nem outro me chama, nem um nem outro me
rejeita. Onde eu estou, eu não posso ficar. Amigo ! Quem me mostrará o caminho ?

Uma região selvagem onde ninguém quer viver, eis o que é o Amor !

Eu sonhava ser um sabre de diamante,
Um sol para eternos combates.
Tu me jogastes no abismo do fogo :
Eu fundi !

O sofrimento é um feito, não uma arma de redenção. Não é necessário sofrer.
O sofrimento só tem sentido si ele destroi a ignorância.

As palavras representam para a Verdade o que um raminho representa para a
floresta. Nós devemos utilisar com prudência esses indícios lançados num
intinerário que, para cada um de nós, é único, vivo e, precisamente, situado
fora da inguagem.

A lua apenas levantada s’inquieta : " Perto de que fonte ele me espera esta
noite, aquele que, brincando com meus reflexos, revela os mistérios ? " A pálida
amada, não encontrará jamais o seu apaixonado. A terra, ciumenta, o arrebatou.

A palavra dos sábios não se grita, ela se murmura... e se cala.

Nenhum orvalho
No jardim da amada,
Só lágrimas.
Nenhuma confidência
Mas, na sarça
Um vento que geme.

Eu sou a luz do sol que se põe, eu sou, bem amada, o canto da sabedoria agonizante.


As palavras de um sábio contém, talvez, toda a Verdade. Esqueça as palavras,
mate o sábio ! Onde está a Verdade ?

Oh irmão !
Sombra sobre meus rastos ensanguentados
Que andou – de século em século,
Sem jamais maldizer minhas loucuras,
Eis aquí o dia da confissão :
Ele não saberia encontrar a Verdade,
Aquele que tem esperança neste mundo.

Vontade e paciência abrem, à todos, o Caminho real. Todavia, os ignorantes
afirmam que ele é o privilégio de uma élite. O Ego simplesmente não aprecia seu
próprio sacrificio.

Os vales e os picos
Cobertos por un véu de lua,
Repousam – confusos, abandonados.
Um vento leve voa das montanhas,
Apodera-se de algumas folhas mortas,
Em seguida de todas.
Assim acontece, irmão,
Com as palavras e as ações
Daqueles que traçaram nosso caminho
Nós devemos, uma noite, expulsá-los
E nos oferecermos
Aos mistérios do desconhecido

Se liberar não pode ser um ato voluntário. Pois querer não querer mais, ou
querer ser livre de querer, é querer.De que então depende a extinção ?
Vaidade ! Vaidade ! Vaidade !

A dúvida, que dilacerou tantos véus, seria ela um último obstáculo ?

Desconfie do sofrimento que se adorna de volúpia e se alimenta de uma grandeza
ilusória. Os séculos estão atravancados de mártirs inúteis.
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