Amigo, não abandone o Caminho que se tornou rude, não o maudiga quando a morte alí lhe segue, não duvide, si através de suas lágrimas, você só vê solidão.

O peregrino foge da facilidade. Na complacência à respeito do mundo, ele teme perder a Vida.

Às vezes, inquietos, nós nos perdemos em conjeturas e tentamos imaginar o Despertar. Em vão. Para descobrir o desconhecido, é necessário primeiro desviar-se do conhecido.

Um dia de tempestade, eu chamei o guia dos solitários. Ele apareceu e disse : " Em toda parte onde há uma ruina, existe a esperança de um tesouro.Porque não procuras o tesouro de Deus no coração devastado ? "

O viajante geme em suas roupas molhadas, indiferente à terra que se alegra sob a trovoada. Ele vê a árvore fulminada, mas não a beleza do relâmpago.

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Deste deserto onde Tu me fazes caminhar, quantos gritos subiram, inutilmente, en Tua direção ? Meus olhares só abrangem rochas e poeiras. Meu alimento ? Lágrimas. Meus companheiros ? Animais ferozes. Morte, a que eu te servirei ?

Si realmente tu quizesses servir Me, temerias o aniquilamento ?

" Festejar na margem ", é se alimentar do passado, é falar de política ou de religião, é ler estas linhas e ainda se atar à coisas sem importância.

À cada instante, o Caminho está aberto. Mas nós tagarelamos, gracejamos, indolentes, indiferentes. Depois vem o tempo das lágrimas e das recriminações. Nós acusamos então as circunstâncias e crucificamos aqueles que falam da nossa negligência.

Os caminhos deste mundo
Tem a consistência das nuvens.
Deixe pois o vento brincar com eles
E, quanto à você,
Cuide dos negócios do Amigo.

Certo sábio nos aconselha a manifestar, em relação às mulheres, uma " indulgência cavalheiresca ".
As chances de todos são iguais e uma diferença de aspecto não justifica nenhuma indulgência.

De tempos em tempos, um estrangeiro, um livro, um sonho, vem nos falar da nossa natureza íntima. Infelizmente, com muita frequência, este mensageiro só deixará no seu rasto a nostalgia de horizontes sem limites, apenas entrevistos antes que, por medo, nós nos entrincheiremos em nosso habitos.

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Si toda esperança tivesse desertado do Caminho, nós teríamos cedido à tentação de desaparecer, e jamais nós teríamos chegado nesses lugares onde a vida não se alimenta mais de esperança.

Companheiro !
Si tu queres que no jardim do Amigo
Mil e uma rosas floresçam
E que o vento, em direção da amada
Transporte o perfume :
Renuncie à ti mesmo !

Às vezes nós dansamos entre os homens,
Às vezes com os deuses.
Além da vida e da morte,
Do espaço e do tempo,
Desapareceram nossos apegos.

Amigos, si seus passos o conduzem nesses lugares onde se oferecem poderes, acautele-se ! A sedução deles é grande e sua manipulação perigosa. Não os utilise jamais sem uma ordem.

Estranhas são as vias do guia dos solitários :

Um dia ele abraça,
No dia seguinte ele mata.
Suas formas são múltiplas :
Uma flor, um sonho, um vagabundo.
Mas quem sabe reconhecer nele
O Amigo que passa ?

Meu primeiro companheiro me ensinou a me conhecer. O segundo descobriu p´ra mim as leis do universo. O terceiro me fez compreender, em uma palavra, a insignificância de saber tudo.

O desenvolvimento de um conflito sempre obedece ao mesmo esquema : Eu quero alguma coisa que eu não posso obter. Mas esta tomada de consciência não resolve o conflito. Uma " destruição " íntima, que não é uma abdicação covarde, é necessária para que cessem, súbitamente, todos os conflitos.

Nós pensamos nos conhecermos pelas nossas ações, mas será que sabemos quem as induz, como e porque ?

Uma flecha atinge o alvo ou falha. Si ela passa ao lado, pouco importa que seja perto ou longe. Da mesma maneira, não há progresso na via do desapego : nós somos livres ou prisioneiros.

Parece que alguém morreu, há muito tempo, pela nossa « redenção ». Mas que pecados teríamos cometido, nós que não éramos nascidos ? E hoje, de onde tiram eles tanta ciência aqueles que pretendem sempre, em nome de Deus, conhecer o mal e seus remédios ?

Não aceites morrer por nenhum homem, nenhuma idéia, nenhum " Deus ". Mas não temas acabar, esquecidos, no caminho do Amor.

Auto-portrait : Christina

Porque se submeter à um " guia de papel " * e procurar, na vasa das palavras, os tesouros do Instante ?

* Assim qualificamos, às vezes, os livros da sabedoria.

A liberdade ínterior é o objeto dos nossos mais ásperos debates. Entretanto, quando ela nos é oferecida, nós a fugimos como a toupeira foge da luz.

Um rio, vindo de um desconhecido muito além do nascimento, nos conduz longe após a morte. Nós somos, deste poderoso rio, uma gota indócil.

A alvorada ilumina mil caminhos. Que importa aquele que nós escolheremos ? O crepúsculo nos ferá esquecê-los todos.

Depois que eu mesmo não espero mais nada, eu danso com o vento.

Irmão ! Bebamos !
Ao Amigo,
A Seus caminhos.

Si vós conhecieis o porque deste mundo, o que poderias mudar ? O efémero é a essência do universo e nenhum outro conhecimento não vos abrira as portas da eternidade.

Frágil demais, limitado demais nas suas percepções, incapaz de sabedoria, o homem não é certamente, para a Consciência, o suporte mais adequado. Nós podemos razoávelmente supor que a Vida, cedo ou tarde, procurará uma forma mais apta à exprimir sua Inteligência.

Minhas lágrimas se transformaram em rios correndo terras à procura da amada. Depois, meus pensamentos, flechas de ouro voando através dos sete mares, encontraram o lugar do seu sono. Enfim, o Tempo passou...

Jamais eu voltarei em direção do túmulo
Escondido sob meus silêncios ;
Mas as rosas dos arredores vós dirão
Que ela foi o sol de um solitário
Aquela que repousa aqui,
Nos véus da eternidade

O nome da amada,
Eu o pronunciei ?
O nome do amante,
Eu o revelei ?
O nome do guia deles
Porque redizer ?

De vossas orgulhosas muralhas, só sobrará ruinas.

Eu escutei sons sibilantes e cortantes de metal, em seguida, ràpidamente, gritos de agonia. Uma voz, dominando o tumulto, ordenou : " Você ! Vá embora daqui ! ". Eu me afastava, visitava outros horizontes, mais eu repetia sempre :

Si vós não tivésseis tido medo do Amor,
Outros cantos teriam coberto o mundo

Companheiro !
Antes que o Amigo – por você – tenha aberto a janela, você ignorava a existência do mundo e não sabia que, neste desfile atormentado, você encontraria a amada.
Companheiro !
Quando o Amigo – por você – fechará a janela, o que saberás ainda do mundo e da amada ?

Eu definhava clamando noite e dia diante da Porta, quando enfim uma voz murmurou : " Deixe ao vento saber e razão, esqueça esforços e méritos, abandone aqui medos e esperanças. No reino da Nudez, o que faria você destas velhas roupas ? "

Lá onde ressoa seu riso
O vento brinca e canta.
O que seus olhos contemplaram
Permanece por além dos séculos.

Porque chorar o Amigo que parte ?
Ele foi o que nós somos :
Un instante do eterno.
Porque chorar o Amigo que parte ?
Ele é o que nós seremos,
A testemunha da última verdade :
Rosa ou galaxia – neste universo,
Nada dura.

Antes de desaparecer, a criança me entregou seu último tesouro : um diamante de belo talhe. Mas o que fazer daqui por diante de uma tal joia ? Sobre que coroa, emblema de qual reino selá-lo ? À noite, dentro de um lago, eu o lancei.

Sobre cimos perdidos
Banhados pela lua
Dorme o lago.
Em suas profundezas jaz o diamante :
Poderes oferecidos ?
Véu do Amor ?
Sabedoria eterna ?
Que importa !

Mais tarde, eu escutei estas palavras :

Da origem e do fim, amigo,
Não te preocupes.
Nascimento, vida e morte são sonhos
E o Caminho ele mesmo
Não tem existência
Então venha, amigo !
Às sombras deste mundo
Não concedamos mais um só olhar.

Ao alvorecer, um gavião se aproximou e disse :
Eu queimei os livros e destruí os lugares sagrados.
Ímpio ! gritou a multidão. À morte !
O pássaro de um golpe de asas se afastou, mas todos perceberam :
Pensavam vocês, em casinhas tão pequenas, O alojar ?

Em seguida um segundo gavião veio e disse :
De um sopro eu incendiei a Terra.
Ímpio ! gritaram os anjos. À morte !
O pássaro de um golpe de asas se afastou, mas todos escutaram :
Esperavam vocês, de poeira O alimentar ?

Enfim um último gavião veio e disse :
De um olhar eu aniquilei o Universo.
Então, do Abismo uma voz se elevou :

Nesse " nada ", Isto é.




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